A Transformação Digital no agronegócio é um desafio que vai muito além da compra de software ou máquinas avançadas. Ela é, fundamentalmente, uma questão de pessoas, cultura e gestão. Neste episódio do Rural Women Podcast, Camilla Dojicsar, Executiva de TI e Transformação Digital com vasta experiência em multinacionais (BASF, Citrosuco, CTC) e conselheira do GTAgro, revela como a inovação só se sustenta quando a tecnologia é tratada como um meio para acelerar um negócio bem organizado, e não como um fim em si mesma.
O Diagnóstico da Transformação: Processo, Governança e Pessoas
Camilla Dojicsar compartilha um insight central: o maior desafio na transformação digital não é a tecnologia, mas a falta de governança, processo e aculturamento. Ao relatar sua experiência entrando no agronegócio, ela demonstrou que as dores do negócio, como a baixa eficiência de um maquinário, muitas vezes são causadas por falhas na padronização das operações e na preparação das equipes.
A executiva utiliza a régua de prontidão tecnológica da Akatec, que mede a maturidade da empresa em seis níveis (do computadorizado ao autônomo). Essa régua prova que, antes de sonhar com IA (nível 5), a empresa precisa dominar o básico: sistemas conectados (nível 2), visibilidade dos dados (nível 3) e, crucialmente, uma estrutura organizacional que não engesse a inovação.
Cultura como Motor: A Resistência às Mudanças e a Carreira em “T”
O pilar mais crítico para o sucesso é a cultura. Camilla compara a cultura a um motor: se não for lubrificado com aprendizado contínuo e um clima favorável, a tecnologia (a “Ferrari”) ficará parada na garagem. A resistência à mudança e a falta de mão de obra qualificada são os maiores desafios atuais, pois a tecnologia avança mais rápido que a capacidade de adaptação das pessoas.
Para os jovens e executivos, a dica é construir uma “Carreira em T”: desenvolver uma base horizontal ampla de conhecimentos (gestão de projetos, pessoas, processos, tecnologia) e, ao mesmo tempo, ter uma vertical de conhecimento profundo (ex: Big Data ou Machine Learning). Essa abordagem garante que o profissional se mantenha relevante no “super ciclo tecnológico” atual.
IA e Ética: O Dilema da Máquina Moral e a Segurança do Dado
A Inteligência Artificial (IA) está impulsionando um super ciclo tecnológico que une Biologia, Dados e IA, criando sistemas adaptativos. Contudo, essa evolução traz dilemas éticos profundos, como o teste do “Moral Machine” (MIT e Google) que força a máquina a tomar decisões de vida ou morte. Isso demonstra que a ética e a cultura de quem treina a IA são cruciais para a sustentabilidade das soluções.
Na gestão de TI, o desafio é trabalhar a segurança da informação sem bloquear a inovação. A governança flexível é necessária para que o colaborador possa inovar (Open Innovation) sem expor dados confidenciais. A transparência na digitalização, inclusive, deve ser vista como uma ferramenta que ajuda o colaborador a se concentrar em tarefas mais nobres, e não como um método de monitoramento.
A Importância do Plano Diretor e da Liderança de TI
O episódio sublinha que a transformação digital exige um Plano Diretor de longo prazo, assim como um presidente de um país. Esse plano deve desdobrar ambições (como dobrar o market share) em projetos de Dream Now, Plan Now e Do Now na linha do tempo.
O líder de TI tem um papel estratégico e precisa estar próximo ao Board, entendendo o negócio para preparar os sistemas para o crescimento futuro. O sucesso final, especialmente para as empresas familiares que estão se tornando jurídicas, depende de começar com organização e gestão, para que o lucro e a eficiência sigam de forma sustentável.
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About The Author
Ana Luiza
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Ana Luiza é graduanda em Administração na ESALQ-USP e atualmente integra a equipe da Rural, atuando como estagiária em Research e Conteúdo. Sua rotina envolve a curadoria de notícias, produção de relatórios e desenvolvimento de conteúdos sobre inovação no setor do agronegócio.
Ao longo da graduação, Ana Luiza teve experiências que reforçam sua afinidade com o agronegócio e a análise estratégica. Atuou no CEPEA (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), com foco na análise de mercado. Fez parte do grupo de extensão MarkEsalq, onde trabalhou com marketing e dados de engajamento nas redes sociais. E além disso, também integrou a EJEA (Empresa Júnior de Economia e Administração da ESALQ-USP), atuando com clima organizacional.
Motivada por aprender, se desafiar e gerar impacto, Ana Luiza acredita que a troca entre pessoas, conhecimento e propósito é o que transforma ideias em soluções.









