Há alguns anos finalizei meu MBA em Agronegócios na USP/Esalq e, no Trabalho de Conclusão de Curso, investiguei um tema que continua extremamente atual: a influência dos fenômenos El Niño e La Niña na produtividade e nos preços da cana-de-açúcar no Brasil.
À primeira vista, pode parecer uma discussão restrita à meteorologia. Mas, quando analisamos a cadeia sucroenergética de forma mais ampla, fica evidente que o clima vai muito além da lavoura. Ele influencia a disponibilidade de matéria-prima, a eficiência operacional das usinas, os custos de produção, a logística, a oferta de combustíveis e, consequentemente, a formação dos preços em toda a cadeia.
O tema ganha ainda mais relevância neste momento. Em 11 de junho de 2026, a NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) oficializou o início de um novo episódio de El Niño no Oceano Pacífico. A confirmação encerra meses de monitoramento das condições oceânicas e atmosféricas e marca o início formal de um fenômeno que historicamente produz impactos importantes sobre a agricultura mundial.
Para o setor sucroenergético brasileiro, a notícia merece atenção. Os eventos de El Niño costumam alterar significativamente a distribuição das chuvas no Centro-Sul do país, afetando desde o desenvolvimento vegetativo dos canaviais até a qualidade da matéria-prima entregue às usinas. Em um cenário em que o mercado projeta recuperação da oferta para a safra 2026/27, compreender esses impactos torna-se fundamental para produtores, indústrias e agentes de mercado.
Foi justamente essa relação que meu estudo buscou compreender. A pesquisa analisou dados entre 2005 e 2024, relacionando as fases de El Niño, La Niña e neutralidade climática com a produtividade da cana-de-açúcar e com os preços da cana, do etanol anidro e do etanol hidratado.
Os resultados mostraram que o comportamento do setor é mais complexo do que muitas vezes imaginamos. De forma geral, os períodos de La Niña estiveram associados a cenários de maior restrição hídrica e preços mais elevados, enquanto os eventos de El Niño apresentaram maior frequência de preços mais baixos. Já a produtividade não respondeu de forma linear aos fenômenos, evidenciando que os efeitos climáticos se propagam por diferentes etapas da cadeia produtiva.
O que os dados mostram
A cana-de-açúcar é uma cultura altamente dependente do equilíbrio entre disponibilidade hídrica, temperatura e condições adequadas para colheita.
Quando ocorre excesso de chuva, o desenvolvimento vegetativo tende a ser favorecido, mas surgem desafios operacionais importantes. O aumento da umidade do solo dificulta a entrada de máquinas nas áreas de produção, amplia o risco de interrupções na colheita e pode comprometer os índices de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR).
Por outro lado, em cenários de déficit hídrico, a maturação da planta pode ser acelerada, mas o crescimento vegetativo é prejudicado, reduzindo a produção total de biomassa e limitando a oferta de matéria-prima para a indústria.
Os números recentes ajudam a ilustrar esse comportamento:

Os dados mostram uma safra 2025/26 marcada por forte estresse hídrico e perda de produtividade, seguida por uma perspectiva de recuperação significativa para 2026/27, impulsionada pelas melhores condições observadas nos últimos meses.

Figura 1. Indicadores centrais do setor sucroenergético em safra recente e projeção.
Do campo à formação de preços
Um dos aspectos mais interessantes observados na pesquisa foi a forma como os impactos climáticos se propagam para além da porteira.
A influência do clima sobre os preços ocorre por diversos mecanismos simultâneos. A produtividade afeta a oferta de matéria-prima. A qualidade da cana interfere na eficiência industrial. A disponibilidade de produto influencia estoques e contratos. Tudo isso acaba refletindo nos preços praticados ao longo da cadeia.
Nos períodos associados à La Niña, a menor disponibilidade hídrica tende a restringir a produção e criar um ambiente de oferta mais apertada, favorecendo movimentos de valorização da cana e dos combustíveis.
Nos períodos de El Niño, por outro lado, a maior disponibilidade de água pode estimular o crescimento dos canaviais, mas também aumentar desafios logísticos e operacionais. Dependendo da intensidade do fenômeno, o resultado pode ser uma combinação de maior oferta física com pressão sobre preços.
Outro resultado interessante foi o comportamento observado durante os períodos de neutralidade climática. Nesses anos, tanto a produtividade quanto os preços apresentaram menor volatilidade. Em outras palavras, a ausência de extremos climáticos contribuiu para um ambiente mais previsível para produtores e indústrias.
O que muda na safra 2026/27
O setor sucroenergético inicia a safra 2026/27 em um contexto bastante diferente daquele observado um ano atrás.
Após uma temporada marcada por restrições hídricas e redução de produtividade, as projeções apontam para uma moagem entre 642,2 e 648,3 milhões de toneladas no Centro-Sul. Considerando também a produção das demais regiões do país, o processamento nacional pode se aproximar de 700 milhões de toneladas
Ao mesmo tempo, a expansão do etanol de milho continua avançando e amplia significativamente a oferta de biocombustíveis no mercado brasileiro.
Sob a ótica da oferta, o cenário é claramente mais confortável do que o observado em 2025/26.
Entretanto, a oficialização do El Niño adiciona um novo elemento à equação. Caso o fenômeno evolua conforme indicam os modelos climáticos, o setor poderá enfrentar um aumento na frequência de eventos de chuva durante fases importantes da safra, o que exigirá atenção redobrada na gestão operacional e logística.
Mais uma vez, fica evidente que o desafio não está apenas em produzir mais. Está em transformar essa produção em eficiência, qualidade e rentabilidade.
Regulação, energia e segurança de mercado
Outro aspecto que ganhou relevância nos últimos anos é o papel das políticas energéticas na formação do mercado.
A discussão sobre a ampliação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, especialmente com a evolução para o E32, demonstra como a regulação passou a atuar como um instrumento importante de equilíbrio entre oferta e demanda.
As estimativas indicam que essa medida pode absorver aproximadamente 1 bilhão de litros adicionais de etanol por ano, contribuindo para reduzir excedentes, fortalecer a segurança energética nacional e diminuir a dependência de importações de combustíveis fósseis.
Essa dinâmica mostra que o setor sucroenergético ocupa hoje uma posição estratégica muito além da produção agrícola. Trata-se de uma atividade diretamente conectada à política energética, à transição para uma economia de baixo carbono e à segurança do abastecimento nacional.
Uma lição que continua atual
Passados alguns anos da conclusão daquele trabalho de MBA, a principal conclusão permanece a mesma.
No agronegócio, clima não é apenas uma variável ambiental.
É uma variável econômica.
Quem atua na agricultura, na energia ou nos mercados de commodities precisa compreender que eventos climáticos têm capacidade de alterar a oferta, os preços, a rentabilidade e as decisões de investimento de todo um setor.
Por isso, acompanhar fenômenos como El Niño e La Niña deixou de ser apenas uma questão técnica. Tornou-se parte do processo de gestão e planejamento.
No caso da cana-de-açúcar, entender essa dinâmica significa reduzir riscos, melhorar decisões e aumentar a capacidade de adaptação de toda a cadeia produtiva.
Ao longo das últimas décadas, o agronegócio brasileiro demonstrou uma extraordinária capacidade de adaptação. Em um cenário de crescente variabilidade climática, essa característica deixou de ser apenas uma vantagem competitiva.
Passou a ser uma condição indispensável para o futuro do setor.
About The Author
Willians Bini
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Willians Bini é meteorologista e líder estratégico com 27 anos de experiência no agronegócio, atualmente como Head de Novos Negócios na METOS Brasil. Com Graduação e Mestrado em Ciências Atmosféricas, além de MBA em Agronegócios e Negócios (USP/Esalq), Willians construiu uma carreira sólida impulsionando o crescimento e a inovação. Foi sócio e CRO da Somar Meteorologia e sócio e Head de Agronegócio no Climatempo, onde liderou equipes, atuou como porta-voz de temas ligados ao clima e gerenciou projetos institucionais e governamentais. Reconhecido palestrante e especialista em mudanças climáticas e adaptação, ele aplica seu vasto conhecimento para identificar e desenvolver novas oportunidades, utilizando soluções avançadas de IoT e inteligência de dados para transformar o setor.









