Lideranças femininas: a importância de conectar capital e conheça mulheres agtechs

O Dia Internacional da Mulher não é apenas uma data simbólica. É um chamado estratégico. Especialmente quando olhamos para inovação, Venture Capital (VC) e agronegócio.

Os números globais deixam claro que ainda estamos longe da equidade.

O gap global de investimento em fundadoras

Segundo o Global VC Funding by Gender (2024-2025), em 2024, dos US$ 289 bilhões investidos globalmente em Venture Capital:

  • 2,3% foram destinados a times fundadores exclusivamente femininos (US$ 6,7 bilhões)
  • 83,6% foram destinados a times exclusivamente masculinos (US$ 241,9 bilhões)
  • 14,1% foram destinados a times mistos

Empresas fundadas apenas por mulheres representaram 6,4% dos deals, mas receberam apenas 2,3% do capital, segundo o mesmo levantamento.

E o ticket médio também revela a disparidade:

  • Startups com fundadoras mulheres: US$ 5,2 milhões
  • Startups com fundadores homens: US$ 11,7 milhões

Mesmo com leve evolução desde 2023, a projeção indica que, no ritmo atual, a paridade no venture capital só seria alcançada por volta de 2065.

No lado dos investidores, o cenário também impacta o fluxo de capital:

  • Apenas 15,4% dos cargos de decisão em fundos de VC são ocupados por mulheres
  • 5,7% dos fundos foram fundados por mulheres
  • Apenas 4,9% das gestoras possuem maioria feminina entre sócias

Há avanço na base, com 33,7% de mulheres em cargos juniores, mas a liderança ainda é majoritariamente masculina.

América Latina: um cenário desafiador, mas com sinais de movimento

Segundo o LAVCA Startup Ecosystem Insights, no primeiro semestre de 2025:

  • 16% dos deals foram para startups lideradas por mulheres
  • 18% do capital foi direcionado a essas startups
  • Apenas 19% das startups da América Latina são lideradas por mulheres

Quando olhamos país a país, vemos variações importantes:

  • Colômbia: 5,7% do capital para times exclusivamente femininos
  • México: 4,5%
  • Brasil: 3,3%

O Brasil, maior economia da região, ainda performa abaixo de seus pares em termos proporcionais.

O ecossistema Rural: um retrato que inspira, mas também desafia

No ecossistema da Rural, 25% das mais de 600 startups possuem mulheres ou minorias como cofundadoras. É um número acima da média global de fundadoras exclusivamente femininas, mas ainda distante de um equilíbrio estrutural.

O desafio não é apenas aumentar o número de mulheres fundando startups. É garantir que elas cresçam, escalem e se tornem protagonistas em setores estratégicos como AgTech, Climate Tech e FoodTech.

E aqui surge um contraste poderoso.

Mulheres na liderança de fazendas: capital, tecnologia e protagonismo

Enquanto os investimentos ainda são concentrados, o campo revela outra realidade emergente.

Hoje, 75% dos cadastros no Ministério da Agricultura e Agropecuária são realizados por mulheres. O engajamento digital feminino no agro é crescente e consistente.

Segundo o último Censo Agropecuário do IBGE, cerca de 18,6% dos estabelecimentos rurais brasileiros são liderados por mulheres, totalizando aproximadamente 940 mil propriedades sob gestão feminina.

O estudo “Produtoras rurais e a inovação no campo”, realizado pela Quiddity em parceria com a Bayer, reforça essa tendência:

  • 51% das mulheres buscam capacitação constante
  • 22% buscam capacitação quando sentem necessidade
  • 76% apontam sustentabilidade como prioridade em cursos e palestras
  • 78% afirmam que dar visibilidade ao trabalho feminino é fundamental para ampliar a participação das mulheres no agro

Temas como inovação, novas tecnologias e sustentabilidade estão no topo da agenda dessas líderes.

Mas há um paradoxo.

Apesar da busca ativa por conhecimento e inovação:

  • Apenas 3% das respostas indicam maior presença feminina em atividades de gestão
  • Apenas 6% percebem maior presença feminina em áreas de tomada de decisão

Temos, portanto, mulheres produtoras engajadas, buscando tecnologia, investindo em capacitação, muitas vezes com capital próprio ou capacidade de investimento e, ao mesmo tempo, mulheres cientistas e empreendedoras lutando para escalar suas startups.

O gap invisível: cientistas, empreendedoras e executivas

Existe um desalinhamento estrutural.

De um lado:

  • Mulheres pesquisadoras desenvolvendo biológicos, soluções digitais, inteligência artificial, plataformas de gestão, soluções de carbono e eficiência produtiva
  • Fundadoras tentando acessar capital e mercado

Do outro:

  • Mulheres na liderança de fazendas
  • Executivas da agroindústria
  • Tomadoras de decisão com orçamento, influência e demanda real por inovação

Conectar esses dois polos pode gerar um efeito exponencial.

Quando mulheres compram de mulheres.
Quando mulheres investem em mulheres.
Quando mulheres lideram a adoção tecnológica no campo.

Criamos não apenas mais startups fundadas por mulheres, mas negócios mais robustos, com mercado validado e capacidade real de escala.

E mais: ampliamos o número de investidoras no setor, fortalecendo um ciclo virtuoso de capital, inovação e impacto.

A resposta: Rural Women

Foi exatamente para atuar nesse ponto de conexão que nasceu a iniciativa Rural Women.

Começamos dando voz às mulheres por meio do podcast, trazendo histórias reais de liderança, inovação e transformação no agro.

Agora avançamos para programas estruturados de conexão e educação, com foco em:

  • Tecnologia aplicada ao agronegócio
  • Educação em investimentos e venture capital
  • Conexão entre fundadoras, produtoras e executivas
  • Ampliação da presença feminina em conselhos, fundos e decisões estratégicas

O objetivo é claro:
Não apenas aumentar o número de fundadoras.
Mas garantir que elas cresçam, escalem e transformem o agro.

Digitalizar a fazenda.
Resolver gargalos históricos de eficiência.
Criar soluções mais sustentáveis.
E ampliar o protagonismo feminino em toda a cadeia.

Porque inovação não é apenas tecnologia.
É também diversidade de visão, de decisão e de capital.

Neste Dia Internacional da Mulher, mais do que celebrar, precisamos estruturar pontes.

Entre ciência e campo.
Entre capital e tecnologia.
Entre liderança e impacto.

Inscreva-se no podcast: https://open.spotify.com/show/2dUhnPVInfSgQicYdpULkN?si=8deae4fc2d614e43

AgTech Women to Watch – Mulheres AgTechs para conhecer

Conheça algumas lideranças femininas que estão impulsionando inovação, tecnologia e crescimento no agro.

Sei que a lista é muito maior e espero incluir e entrevistar muitas mulheres incríveis ao longo do ano no Rural Women, mas a correria não nos permitiu trazer mais nomes para o artigo de hoje.

Saiba que muitas outras terão destaque no podcast, aqui no site e nos eventos. Enquanto isso, vamos conhecer lideranças maravilhosas que conheço e interajo no Ecossistema Rural?

– Fabiane Kuhn, Co-founder & CEO da Raks

Fabiane Kuhn

Fabiane Kuhn é uma empreendedora brasileira que atua na interseção entre tecnologia e agronegócio. Formada em ciência da computação e com formação técnica em eletrônica, iniciou sua jornada desenvolvendo um sensor de umidade do solo durante um projeto de pesquisa sobre irrigação após a crise hídrica de 2015. A inovação evoluiu para a criação da Raks Tecnologia Agrícola, fundada em 2017, que desenvolve sensores solares conectados capazes de monitorar o solo e otimizar o uso de água e energia na irrigação. Hoje a tecnologia da empresa é utilizada em milhares de hectares no Brasil, atendendo principalmente pequenos e médios produtores. Em reconhecimento à sua trajetória empreendedora e impacto no agro, Fabiane foi selecionada para a lista Forbes Under 30 Brasil 2025.

Mariana Caetano, CEO e Cofunder na SALVA

Mariana Caetano possui mais de 22 anos de experiência no agronegócio, destacando-se pela sua atuação estratégica e inovadora. Durante 14 anos, foi COO em uma renomada operação de cafés especiais, liderando iniciativas de rastreabilidade, transparência e negociações globais. Pioneira na adoção de alta governança no campo, implementou práticas sustentáveis, insumos biológicos e estratégias para mercados futuros. No Venture Capital, atuou como head de um fundo de agtechs.

Em 2022, foi cofundadora e atualmente é CEO da Salva, uma Climate Tech que utiliza tecnologia e inteligência artificial para gerir ativos naturais. A Salva oferece ferramentas essenciais para viabilizar a transição do agronegócio para a agricultura de baixo carbono, incluindo o balanço de emissões de carbono, monitoramento de sistemas de plantio e pastagens, seguindo o conceito de Sustainability as a Service.

Conheça mais sobre ela no Rural Talks, no Spotify ou Youtube:

Priscilla Veras , Founder e CEO da Muda Meu Mundo

Priscilla Veras, Fundadora e CEO da Muda Meu Mundo, é pedagoga, cientista política e possui pós-graduação em áreas de gestão. Com quase 20 anos de atuação no terceiro setor, trabalhou em ONGs voltadas à educação integral de crianças e adolescentes, incluindo sete anos na Compassion Internacional, organização que apoia crianças em situação de vulnerabilidade. Nessa trajetória, liderou programas de educação rural e expansão da Muda Meu Mundo no Brasil, fortalecendo iniciativas que conectam pequenos produtores ao mercado.

Após visitar centenas de propriedades rurais, percebeu que os pequenos agricultores eram os mais vulneráveis, muitas vezes sem conhecimento sobre os trâmites básicos das negociações comerciais. Foi então que teve o insight de criar uma solução que conectasse diretamente o campo aos pontos de venda, eliminando intermediários. Assim nasceu a Muda Meu Mundo, uma startup que oferece uma plataforma tecnológica para pequenos produtores comercializarem seus produtos diretamente com grandes varejistas, garantindo uma margem de lucro mais justa. A empresa também fornece apoio logístico, adiantamento de recebíveis, oferta de créditos e aquisição de insumos, contribuindo para a eficiência e sustentabilidade do agronegócio.

Conheça mais sobre ela no Rural Talks no Spotify ou Youtube:

Gladys Mariotto – Ph.D., CEO da Já Entendi AGRO

Gladys Mariotto é Mentora no Founder Institute e participou de programas de aceleração como Endeavor (Visão de Futuro), 500 Startups (EUA) e Quintessa (Negócios Sociais). Doutora em Neurociência e Cognição, possui formações em Filosofia, Belas Artes, História da Arte, Sociologia e Neuroeducação, além de especializações em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem. Co-fundadora da Já Entendi Agro, da ABEON Cursos Denatran e da ALLOS Editora, desenvolve treinamentos e capacitações voltados para grandes corporações, impactando resultados como “Morte Zero” na ENEL Brasil e aumento no engajamento de vendas na Natura S/A. Com uma trajetória de impacto na educação, escreveu 40 livros, produziu 30 filmes e dirigiu diversos documentários, acumulando 38 prêmios em inovação, artes e cultura. Como palestrante, participou de eventos nacionais e internacionais, incluindo Japan Prize (Japão), Festival Latinoamericano del Cine Nuevo (Cuba) e Ethos 360º. Além disso, atuou em projetos culturais no Brasil e em países como Cuba, Portugal, França, Itália e Japão. É CEO da Já Entendi Agro, startup que visa facilitar o acesso à informação técnica no campo, conectando produtores rurais e especialistas através de uma plataforma digital.

– Natália Naddeo, Fundadora e Diretora Científica da Small Nanotechnology

Natália Naddeo é Farmacêutica, Mestre e Doutora em Ciências Farmacêuticas. Experiência em Controle de Qualidade na indústria farmacêutica veterinária e humana. Pesquisadora em desenvolvimento de sistemas de liberação de fármacos, caracterização físico-química e desempenho biológico. Autor e coautor de 20 artigos revisados ​​por pares. Atualmente está como fundadora e diretora científica da Small Nanotechnology e tem trabalhado no desenvolvimento de tecnologias capazes de melhorar a performance de moléculas químicas e biológicas no campo.

Conheça mais sobre a Natália no Spotify ou Youtube:

– Victoria Lombardi, Head of Corporate Affairs da BemAgro

Victoria Lombardi é Head of Corporate Affairs da BemAgro, onde tem papel estratégico no posicionamento e crescimento de uma das AgTechs mais respeitadas do setor. Desde 2021, lidera a expansão da marca e das estratégias de mercado da empresa, contribuindo para sua consolidação em agricultura digital baseada em dados e inteligência artificial. Durante esse período, a BemAgro acumulou premiações relevantes, ampliou sua presença internacional e atraiu novas rodadas de investimento, fortalecendo sua posição como referência em tecnologia para o agronegócio.

Lia Parente, Chair do Conselho de Administração da Associação de Conselheiros do Brasil

Lia Parente é uma executiva com mais de 20 anos de experiência em inovação, operações e governança corporativa, reconhecida por liderar processos de transformação e crescimento em empresas de tecnologia e agronegócio. Foi COO da iRancho, onde atualmente atua como fundadora e membro do conselho, contribuindo para o desenvolvimento de soluções digitais que apoiam a gestão eficiente e sustentável da pecuária. Ao longo da carreira, liderou estratégias de inovação e expansão internacional, impulsionando crescimento acelerado de negócios e desenvolvimento de novos produtos e startups. Atualmente também atua como Chair do Conselho de Administração da Associação de Conselheiros do Brasil, reforçando sua atuação na agenda de governança e liderança empresarial em agtechs.

– Nadege Saad, Head de Agornegócios na E-agro

Nadege Saad é Head da plataforma E-agro do Bradesco, um ecossistema de soluções voltado ao agronegócio. Formada em economia e publicidade, iniciou a carreira no Unibanco e teve experiência internacional na Unilever em Londres. Posteriormente migrou para o agro na Monsanto, onde participou da transformação estratégica de marketing no setor. Nos últimos anos aprofundou sua atuação em inovação digital e estratégia, incluindo a posição de Chief Strategy Officer da Agrofy no Brasil, até assumir em 2022 a liderança do E-agro, conectando tecnologia, serviços financeiros e soluções digitais para o ecossistema do agronegócio.

Por um agro (e agtechs) com mais mulheres na liderança!

About The Author

Compartilhe

Facebook
Twitter
LinkedIn

Posts relacionadas