O Brasil é um gigante adormecido da biotecnologia. Detentor da maior biodiversidade do planeta e com seis biomas que funcionam como verdadeiros laboratórios vivos, o país concentra ativos únicos que poderiam colocá-lo entre os líderes globais em biotech. No entanto, apesar de reunir mais de 50 mil espécies de plantas, o Brasil ainda é o 9º em número de biotechs e está fora do radar dos principais hubs internacionais.
O motivo? Falta de capital local, baixo investimento em startups nacionais e uma infraestrutura científica desconectada do mercado. Neste artigo, exploramos por que o país mais biodiverso do mundo ainda não se tornou uma potência bioeconômica e o que precisa ser feito para mudar esse cenário.
Biodiversidade no Brasil
O Brasil é o país com maior biodiversidade do planeta, abrigando os seis biomas brasileiros e milhares de espécies únicas em flora e fauna. No contexto do agro e da pesquisa biológica, isso representa um imenso potencial científico e tecnológico.
- 1º em biodiversidade global, com mais de 50 mil espécies de plantas e uma imensa variedade de microrganismos ainda pouco explorados.
- Possui 6 biomas únicos, como Amazônia e Cerrado, verdadeiros “laboratórios vivos” para a biotecnologia.
Estima-se que o Brasil tenha:
- Mais de 50 mil espécies de plantas.
- Mais de 1.700 espécies de aves.
- Cerca de 700 espécies de mamíferos.
- Inúmeras espécies de insetos, peixes e anfíbios, muitas ainda nem descritas pela ciência.
No entanto, quando olhamos para o setor de biotech, o Brasil não figura entre os principais hubs globais.
Brasil fora dos hubs globais de biotech
Enquanto São Francisco, Boston, Londres e Pequim recebem e reinvestem centenas de bilhões de dólares em startups de biotech com capital local (SF sozinho movimentou US$ 500 bilhões nos últimos cinco anos), o Brasil segue altamente dependente de investimento externo — quando ele acontece.

Fonte: Signal (2025)
Investimentos em Biotech
Segundo o estudo da Endeavor (2024), as Biotechs recebem apenas 4,8% do investimento de venture capital (VC) no Brasil, contra 20% no Chile e 7,5% na Argentina.
Em 2023, o total investido em deeptech, que engloba biotechs, foi de cerca de R$ 1,5 bilhão, com crescimento de 20% sobre 2023. Porém, apenas 30% dessas startups atingiram fase de comercialização e escala.
Biotech no país da diversidade:
Segundo o estudo da Nucleate, o que realmente constrói um hub forte de biotech é:
- Densidade de investidores locais;
- Capital que permanece no ecossistema (reinvestimento local);
- Engajamento ativo dos VCs na jornada das startups.
No Brasil:
- Menos de 5% do VC vai para biotech.
- As poucas startups do setor enfrentam gargalos como falta de infraestrutura laboratorial, escassez de investidores especializados e dificuldade de acesso à escala industrial.
- A maior parte dos investimentos ainda é público ou acadêmico, sem capital privado robusto ou local.
| Tema | Brasil |
|---|---|
| Diversidade Biológica | Maior do mundo, com todos os biomas nacionais |
| Número de Biotechs | ~350 ativas (9º no mundo); ~60% na LatAm |
| Participação em VC nacional | 4,8% |
| Investimento em Deeptech no Brasil (2024) | R$ 1,5 bilhão |
| % de biotechs com scale/comercialização | ~30% |
Enquanto São Francisco reinveste 96,9% de seu capital local em startups locais, no Brasil, como no caso de Buenos Aires (5,7%), a lógica é inversa: capital local é escasso, e o pouco que existe geralmente sai do país.
Oportunidades em biotech: Construir de Dentro para Fora
O estudo é claro: biotech cresce localmente. Cidades como São Francisco, Boston e Pequim têm em comum:
- Investidores próximos;
- Ecossistemas densos e conectados;
- Engajamento de longo prazo, com reinvestimentos sucessivos.
Para o Brasil ser protagonista global em biotech, não basta ter biodiversidade. É preciso:
- Mentalidade e capital local comprometido com o longo prazo.
- Infraestrutura científica (P&D) conectada ao mercado (Open Innovation)
- Políticas públicas e privadas que estimulem o reinvestimento interno.
- Descentralização geográfica, levando capital e estrutura para regiões biodiversas, mas esquecidas.
- Retenção de capital dentro do ecossistema.
Referências:
Endeavor (2024). Brazil Biotech Report
Signal (2025): Built from Within: How Local Capital Shapes Global Biotech Hubs
About The Author
Juh Chini
administrator
Juliana Chini é Economista pela Esalq-USP e Mestre em Gestão Internacional pela ESPM, com mais de 15 anos de experiência impulsionando a inovação no setor de alimentos e agronegócios. Trabalhou em corporações, startups e é fundadora do Blog da Carne e da Newsletter Sementis. Como Sócia e Head da Rural Insights, conecta startups, corporações, produtores e o ecossistema de inovação da Rural, além de produzir e disseminar conhecimento e tendências no agro. Mulher, sonhadora, trabalha pelo agro mais inovador, inclusivo e sustentável.









