E o Oscar vai para: o agrotecnológico brasileiro

Janeiro marcou um ponto de inflexão para o ecossistema agrotecnológico brasileiro. Foi o melhor mês para as agfoodtechs desde 2023, quando a Rural iniciou o mapeamento sistemático dos investimentos no setor. As cinco captações de equity e dívida anunciadas no período somaram R$ 210,5 milhões, superando com folga tanto a única rodada registrada em janeiro de 2025, de R$ 20 milhões, quanto a captação de dezembro de 2025, de R$ 4,5 milhões. Todos os dados de investimentos no Brasil são do nosso Rural Tech Report, que divulgamos anualmente para o mercado e mensalmente para os nossos clientes.

Investimentos em agtechs e foodtechs no Brasil

E as negociaçoes seguem movimentadas até agora. No segmento de foodtechs, os investimentos totalizaram R$24,5 milhões, com destaque para a Cellva, que levantou R$20 milhões em uma rodada pré-Série A. A startup desenvolveu o CoffeeCoa, um pó substituto do cacau produzido a partir do fruto do café arábica, que pode ser aplicado na formulação de diversos produtos da indústria alimentícia.

Já no universo das agtechs, os investimentos somaram R$240 milhões distribuídos nas operações de Venture Capital (VC), via dívida e investimento público. Como destaques tivemos a Frete.com, startup de logística com parte relevante da receita ligada ao agro e que teve um investimento via FIDC de R$ 150 milhões, e a BemAgro com sua nova rodada série A de R$ 30,3 milhões. Nesta negociação, a Rural vendeu sua parte da posição como forma de comprovar nossa tese na captação do novo fundo de VC.

E, com o anúncio da rodada da BemAgro no mês passado, as negociações em agfoodtechs em 2026 já superaram, em fevereiro, todo o primeiro trimestre de 2025 e de 2024. Agora, em março, o volume chega a R$ 264,8 milhões, com seis negociações, representando um ticket médio superior ao dos anos anteriores.

Dados atualizados até a data de 13/03/2026.
Fonte: Rural Tech Report

Este volume registrado até o momento no primeiro trimestre de 2026 representa quase 40% de todo o capital investido em agfoodtechs ao longo de 2025, que fechou o ano em R$ 684,6 milhões, e um avanço importante frente aos R$ 219,8 milhões registrados no primeiro trimestre de 2025 e aos R$ 200,3 milhões em 2024. Os números apontam para uma possível retomada em curso.

Temos um cenário geopolítico global que já afeta o agro, além da inflação e, consequentemente, da taxa de juros, que era esperada iniciar um ciclo de queda (veremos na reunião do Copom na próxima semana), o que ajudaria na diversificação de investimentos e no aumento do apetite ao risco. Ainda assim, aguardamos um segundo trimestre positivo, com novos aportes, ainda que mais seletivos, estratégicos e maduros.

Investimentos em capital de risco na América Latina

Mais do que um movimento pontual, esse desempenho dialoga com uma transformação estrutural do capital de risco no Brasil e na América Latina. Após o ajuste iniciado em 2022, o ecossistema latino americano entrou em uma nova fase, marcada por menos exuberância, mais racionalidade e, sobretudo, mais estratégia.

O capital continua fluindo, mas com critérios mais claros. Segundo dados do LAVCA’s 2025 Latin American Startup Ecosystem Insights, as rodadas early stage representaram 54% dos valores investidos em Venture Capital na América Latina em 2025, evidenciando foco em fundamentos, eficiência e teses bem delimitadas. Ao mesmo tempo, observa-se maior rigor nos processos de análise financeira e due diligence, o que ajuda a explicar um segundo semestre de 2025 mais contido em número de anúncios, mas não em qualidade das negociações.

Outro dado relevante é o papel crescente dos Corporate Venture Capital, que participaram de 15% das rodadas na América Latina nos últimos 18 meses, reforçando a aproximação entre grandes corporações e startups em busca de inovação aplicada, um vetor particularmente relevante para o agronegócio brasileiro.

O momento de colocar os holofotes no agrotecnológico

Este amadurecimento do capital acontece justamente em um momento simbólico para o Brasil no cenário global. Em 2024, o país recebeu mais de 9 milhões de turistas internacionais, o maior volume da série histórica, liderando o crescimento global de visitantes segundo dados da ONU Turismo. Tivemos artistas internacionais disputando os destinos turísticos brasileiros no verão, os palcos mais concorridos do Réveillon e até a icônica Carry Bradshaw (Sarah Jessica Parker) deixou de tomar o seu Cosmopolitan no frio novaiorquino para apreciar a nossa caipirinha no carnaval. 

O Brasil também ampliou sua presença cultural no mundo, com destaque em premiações como Globo de Ouro, Oscar e Grammy, enquanto artistas nacionais ocupam capas de revistas internacionais. São momentos e conquistas que demonstram que o Brasil voltou ao radar cultural global.

E, se até o nosso “Caramelo” já conquistou o maior canal streaming do mundo, talvez seja mesmo a hora do agro brasileiro ser vitrine para o mundo, não mais apenas como celeiro, mas como potência tecnológica, sustentável e inovadora na produção de alimentos e energia.

O desafio que se impõe é claro: agregar valor ao longo de toda a cadeia produtiva. Isso só será possível com mais tecnologia, o que exige educação, capital paciente e visão de longo prazo. Em um setor que já se aproxima de um terço do PIB brasileiro, a combinação entre a possível queda da SELIC, valuations mais racionais e maior apetite por diversificação cria um momento singular.

Mais do que nunca, o agro se consolida como motor estratégico para a retomada do Venture Capital e do Corporate Venture Capital no Brasil. Com os olhos do mundo voltados para o país, o palco está montado. O agrotecnológico brasileiro não busca apenas indicações, ele já entrou na disputa pelo prêmio principal.

Enquanto lideranças globais apostam em guerras e disputas pelo comando de combustíveis fósseis, o Brasil aposta na transição energética e em produzir alimentos com tecnologia de forma cada vez mais inovadora e sustentável. E, como diz o nosso Ex-Ministro da Agricultura Roberto Rodrigues: alimento é paz.

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