A segurança jurídica no agronegócio é essencial para garantir a estabilidade e previsibilidade das leis que regem as atividades agrícolas e rurais. O Brasil, com suas vantagens em solo fértil, clima favorável e vasta extensão de terras, enfrenta desafios quando se trata de oferecer segurança jurídica para produtores rurais e investidores. A insegurança jurídica no agronegócio gera incertezas, impactando desde as ocupações irregulares de terras até a volatilidade das operações de commodities.
Insegurança Jurídica no Campo: Ocupações Irregulares e Instabilidade no Mercado de Commodities
Um dos principais problemas enfrentados pelos produtores rurais são as ocupações irregulares de terras. A Constituição Federal, em seu Artigo 5º, incisos XXII e XXIII, garante o direito à propriedade e estabelece que essa deve atender à sua função social. Portanto, a invasão de propriedades rurais viola um direito constitucional.
Para combater esse problema, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) criou um canal de denúncia anônima, permitindo que os produtores reportem casos de invasão de terras. Esse recurso busca melhorar o monitoramento e oferecer apoio jurídico aos produtores afetados.
Além das ocupações irregulares, a instabilidade no mercado de commodities agrícolas também contribui para a insegurança jurídica. A variação de preços pode romper contratos e prejudicar uma das partes envolvidas. Em agosto de 2023, no V Congresso Nacional de Direito Agrário, foi proposta uma solução para evitar prejuízos com a “Alteração Superveniente das Circunstâncias nos Contratos de Commodities”. Essa medida visa proteger tanto compradores quanto vendedores, estabelecendo um equilíbrio entre as partes em caso de oscilações extremas de mercado.
A Recuperação Judicial no Agronegócio: Uma Solução para a Crise
Outro mecanismo importante para garantir a segurança jurídica e proteger os produtores rurais é a Recuperação Judicial (RJ). Este instrumento legal permite que produtores em dificuldades financeiras possam renegociar suas dívidas e reestruturar suas operações. Entre janeiro e setembro de 2023, o Brasil registrou 80 pedidos de recuperação judicial, um aumento de 300% em relação a 2022, de acordo com dados do Serasa Experian. Os estados de Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul lideram o número de pedidos.
O crescimento dos pedidos de RJ reflete a importância desse mecanismo em um setor de alto risco como o agronegócio, onde os produtores rurais são os únicos indivíduos que podem solicitar recuperação judicial sem a necessidade de um CNPJ. Isso proporciona uma oportunidade única para reorganizar suas finanças e evitar a perda de ativos.
O Impacto da Segurança Jurídica no Desenvolvimento do Agronegócio
A falta de segurança jurídica no Brasil ainda é um grande desafio para o desenvolvimento do agronegócio. A complexidade das leis agrárias e a lentidão do sistema judicial geram incertezas que desestimulam investimentos. Melhorias na eficiência do poder judiciário e na aplicação das leis são essenciais para criar um ambiente estável e confiável para produtores e investidores.
A segurança jurídica é crucial para garantir a sobrevivência e o crescimento do setor. Sem ela, o Brasil corre o risco de perder competitividade no cenário global, apesar de ser um dos maiores produtores agrícolas do mundo.

Apesar de contribuir para a superação financeira, o aumento de pedidos de RJ exige cautela, por evidenciar os crescentes desafios financeiros do setor, sejam internos, como alavancagem e problemas na administração, como externos, como as irregularidades climáticas. E, em um ano em que as consequências do fenômeno El Niño impactaram em perdas de produtividade e quebras de safra em diferentes regiões e culturas agrícolas, a RJ tem sido um instrumento necessário para a continuidade da atividade de muitos produtores rurais, representando um fôlego para honrar os compromissos até a próxima safra.